Deitado Em Minha Vida

    Deitado Em Minha Vida

Liberdade, uma palavra tão valorizada e ao mesmo tempo tão confundida com solidão. Chegar em casa, tirar o sapato, pegar uma bebida e sentar com seu livro preferido. Liberdade ou solidão? Chegar em casa cansado, não ter quem lhe dê um sorriso, que pergunte como foi seu dia, lhe dê um beijo e te faça se sentir importante. Liberdade ou solidão?

Ultimamente tenho confundido (ou me enganado propositalmente) sobre minha solidão. Tento sabotar meu coração dizendo que estou maravilhosamente bem sem alguém para atrapalhar minha rotina que tanto gosto. Então assisto um filme complexo e percebo que não tenho alguém com quem discutir a trama, que me dê outra visão do que foi mostrado.  Recebo uma ligação sobre problemas familiares e não tenho ninguém para ligar e dizer: venha aqui agora, preciso de você! Minha liberdade e solidão andam de mão dadas, assim como a alegria e a tristeza. Alegria! Outra palavra estranha. Li recentemente que as pessoas confundem alegria com felicidade. Que buscar a felicidade é cansativo e quase impossível, mas buscar a alegria é simples e reconfortante. A alegria de poder ler um livro tranquilamente deveria ser mais importante do que a tristeza de não ter com quem comentá-lo? Dormir alegre e sossegado a hora que quiser com a sua pior roupa é melhor do que ter que ir dormir no mesmo horário que seu companheiro porque ele tem que acordar cedo e não posso fazer barulho? Olhando as questões por esses ângulos, ficar sozinho parece ser a oitava maravilha do mundo. Mas mesmo a alegria de estar sozinho precisa ser dividida com alguém. De que adianta estar feliz e não ter com quem comemorar? Alguém para elogiar seu novo texto ou dizer que ficou uma porcaria? Como medimos nossa vida? Precisamos, queira ou não, de opiniões externas para definir se estamos indo bem, se estamos bem vestidos, se o corte de cabelo ficou legal. Nenhum homem é uma ilha, mas eu sinto que estou me tornando uma. E cada vez menos deixo barcos e náufragos se aproximarem. Há um rochedo em volta de minha ilha que impede qualquer embarcação de chegar. Uma ilha vazia permanece linda, limpa e natural. No momento em que chega alguém, já não é uma ilha deserta, é um lugar, uma morada, uma área de descanso, violada por pés, sujeiras e barulhos. Dependendo de quem chega, de quem vai, de quem passa, do tempo, uma ilha deixa de ser ilha, engolida pela água, deixando apenas a lembrança naqueles que um dia estiveram ligados a ela. A morte. Não importa o quanto se lute para ser feliz (ou alegre), ou o quanto se seja livre (ou solitário), o final é sempre o mesmo. Horas desejamos esse final, horas imploramos para ficar por aqui o máximo de tempo possível.

Chega um dia em que tudo isso vai acabar, seja na morte ou na sabedoria de que tudo está dentro de minha cabeça. Tento ler e saber de tudo sobre o que me afeta e me deixa morto, mesmo respirando. O que me conduz quando eu saio de casa para trabalhar? O que me faz ir para casa depois do trabalho? Existe uma força invisível que deve me guiar, pois faço isso no automático, como um robô com sua bateria no final, esperando que ela acabe de uma vez. Uma pílula para acordar e aguentar até o fim do dia. Outra pílula para esquecer o dia e conseguir dormir. Como algumas pessoas conseguem viver sem isso mesmo depois de terem passado por coisas terríveis e eu, sem um motivo forte, não consigo sequer aguentar 24 horas sem pensar em morrer? Claro que não vou me matar. Mas nada me impede de pensar na hora da minha morte. Quando será? Como será? Vai doer ou vai ser rápido? Eu quero mesmo morrer ou apenas quero fugir da responsabilidade de que posso mudar tudo se realmente me esforçar? Deus, perdoe, mas não encontro força! Não sei por onde começar. Não sei o que fazer. Até as coisas mais simples estão ficando difíceis. Fazer a barba, cortar as unhas, escovar os dentes. Tomar banho é um pesadelo. Não aguento cinco minutos em pé diante da pia para lavar a louça, imagina quinze minutos em pé embaixo do chuveiro me esfregando! Faço isso tudo com uma vontade terrível de gritar e dizer chega! Choro no chuveiro para não ter que ver minhas lágrimas. Não choro mais na hora de dormir. Até isso é cansativo. Dormir é cansativo, é difícil. Odeio ter que ir para a cama quando as coisas estão começando a ficar legais. Quando o mundo está dormindo e eu consigo me desligar e ler, ver filmes e escrever, quando a alegria de fazer essas coisas começa, já é hora de me dopar para dormir. Vou para a cama me sentindo um fracasso, e acordo sabendo que no fim do dia será a mesma coisa.

Não sinto falta de sexo, nem me masturbar eu tento. Perda de tempo maior que essa não existe. Tanto esforço e desperdício de energia por alguns minutos de prazer que vão me deixar pior depois, pois vou me sentir mais sozinho... Prefiro acender um cigarro e tentar conversar com Deus. As conversas sempre são interrompidas por coisas que não consegui terminar: o livro, o filme, o texto para o jornal, a prateleira suja na farmácia, o banheiro imundo do meu apartamento, o exercício que eu pulei só hoje, e ontem, e amanhã vou pular também. Quem indica exercícios físicos para depressivos deveria ser fuzilado! A pessoa não consegue estender uma roupa sem sentir o corpo doer e eles querem que eu levante pesos? Vão tomar no cu, faz o favor. Beber. Não sou fã de bebida, mas uma vez por mês me permito tomar umas e ficar um pouco alegre. Então consigo cantar, falar bobagens, ser um palhaço que depois volta para casa sozinho e implora para que no outro dia eu acorde sem nada, sem vontade de vomitar, se eu pudesse ao menos vomitar o que aperta o meu peito eu até não me importaria, mas a coisa está sempre lá, apertando e me fazendo forçar a respiração, acalmar a cabeça, não tremer, não chorar, não me encolher no banheiro da farmácia gritando para aliviar. Até me sinto bem quando tem cliente e eu consigo atender e conversar e sorrir naturalmente. Pelo menos isso não foi afetado. É bom e me ajuda a esquecer por alguns minutos que eu sou um ser humano defeituoso. Que tem uma peça na minha cabeça que impede que eu seja feliz, inteiro e normal!

Não estou falando da minha sexualidade. Nunca me senti anormal por ela. Até gosto de ser gay, e não acho que isso tenha a ver com o que sinto ou deixo de sentir. Eu preciso chegar a alguma conclusão sobre tudo isso, Senhor! Não posso ficar assim indo para lá e para cá, sem fazer alguma coisa a respeito. PRECISO de uma solução, ou ao menos um MOTIVO que mude meu modo de pensar, que me faça acordar de manhã e gritar VIVA! Que me faça ir dormir à noite me sentindo leve porque o dia inteiro eu me senti bem, não pensei em morrer, não senti pânico, não tive sono o dia inteiro porque tomei remédios demais para dormir de noite. As vezes preciso dobrar a dose. Nesse ponto eu me conheço bem. Sei quando vou conseguir dormir com um, ou se preciso de uma ajuda extra, sei quando estou entrando numa ladeira rumo ao abismo, li tanto sobre o assunto que conheço todos os sintomas e pré-sintomas. Acho que isso é que me dá um pouco de autocontrole e me faz conseguir fingir que estou bem, que não estou com o coração na língua, que meu estômago não está querendo sair pelo meu rabo e que minha cabeça não está martelando como se fosse um gato preso numa sacola querendo sair... Finjo tão bem que eu poderia começar a “viver” esse personagem. Só que as vezes fica difícil fingir para mim mesmo e o melhor é me atirar no chão da sala e deixar o corpo gritar e fazer tudo isso. Deitar ali olhando para o teto, querendo morrer, com medo de estar morrendo. Uma hora passa. Na verdade, não passa nunca! Só diminui ao ponto de quase parecer que passou, mas tu sabes que está lá, olhando para você de dentro para fora só esperando um momento aleatório do dia para começar a sambar dentro de você. E você reza para si mesmo, como se você fosse um Deus, e pede para que aguente até o fim do dia, da semana, do mês, do ano, da vida, se posso chamar isso tudo de vida, ou apenas uma experiência de mal gosto dos deuses que ficam lá apostando quando eu vou finalmente pular de uma ponte ou cortar os pulsos. Só um aviso: se isso é um jogo de xadrez, eu não sei jogar. Podemos tentar algo mais fácil, tipo Damas, onde tudo que tem que fazer é chegar do outro lado sem ser devorado? E onde é o outro lado? Eu já estou no lado certo ou estou indo na direção contrária? Por favor, me mande um sinal. Pode ser um raio que me parta, eu não ligo.

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