Eu Desisto...

Estava chovendo, e ele chegou em casa do trabalho mais molhado que a rua. Estava cansado, não do trabalho, mas do mundo. Tirou a roupa molhada, tomou um banho quente e resolveu que devia dar um basta nisso, mas antes tinha algo á fazer: escrever um e-mail explicando seus motivos. 

Com um café forte ao lado, sentou e começou a digitar no seu computador de última geração, que em breve seria destruído.

                “Eu desisto. Está cada vez mais difícil ficar aqui, e sei que vocês me entendem. Existem outros que desistiram antes, eu aguentei até agora, mas não consigo mais conviver aqui, com seres que só estão preocupados com uma coisa: destruir tudo. O amor, o planeta, a vida. Sinto que o ser humano perdeu o instinto natural de sobrevivência. Eu mesmo me sinto um cadáver que esqueceu de parar de respirar... O homem, esse ser que nasce, cresce e morre, (e que nessa jornada deveria descobrir o motivo de tudo isso: Porque nascemos?, porque morremos?), está mais preocupado em apressar sua morte e dos outros. Usando drogas, fumando, bebendo, correndo com seus carros, machucando os outros física e psicologicamente. Esse mundo acabou, ninguém parece estar ligando mais.
Tentei descobrir o máximo da natureza humana, e só o que vi foi ignorância (salvo algumas exceções). O homem joga lixo na rua, na praia, no parque, em sua casa, polui tudo, e quando chove e sua casa é invadida pela água, poe a culpa na chuva. A água não entope ralos, a sujeira sim! O homem condena a polícia que mata bandidos, mas defende com unhas e dentes mulheres que matam fetos indefesos. Estes seres reclamam da solidão, mas procuram companhias em lugares onde as pessoas estão tão bêbadas e drogadas que nem lembram o que é relacionamento sério. Estão mais preocupadas com o que tem dentro das calças, e não me refiro apenas ás carteiras e chaves de carro... O ser humano mata mãe, pai, filhos, animais, qualquer coisa, por qualquer motivo que julga importante. Eles votam, sim eles votam para eleger um presidente, mas a maioria dos votos é brancos, nulos e “ausentes”, aqueles não foram votar porque estavam fazendo churrasco e bebendo cerveja com a família com o dinheiro que ganham do governo para dar educação aos filhos. E eles fazem filhos, muitos, sem se importar se vai haver vagas na escola, saúde, segurança, trabalho... E o que é pior: o governo dá de graça métodos anticoncepcionais, com pílulas e preservativos, mas paga se você tiver mais filhos (claro, futuros eleitores..). Então, a maioria (que não votou em ninguém!), se revolta e querem brigar, transformando tudo numa confusão que nem eles entendem, até porque não tem sentindo. Eles reclamam de corrupção, mas se estivessem no lugar dos “poderosos”, com certeza aceitariam um dinheirinho “extra”. Aqui tudo tem um preço. Menos o vazio... Então começa a auto-destruição: fugas em drogas, remédios e outras coisas que te façam se sentir normal, seja lá o que “normal” signifique, porque aqui eles separam as pessoas por cor, por sexo, por religião, por raça, por time, por fisionomia, por classe social, enfim, há uma grande quantidade de rótulos para os outros: o burro, o gordo, a patricinha, o veado, o garanhão, a puta, o negro, o favelado, o maconheiro, a mãe solteira, o nerd, o doente, a quatro-olhos, enfim, a lista é grande.
                Sei que quando nasci, há 35 anos, vim com uma missão, e quero encerrá-la. Perdi. Acho mesmo que esse mundo não tem cura e o que aconteceu com os dinossauros deve acontecer logo com esses mini-dinossauros, feras carnívoras dispostas a devorar e destruir tudo que ameaça sua “paz” de espirito, sua ideologia de felicidade. Meros mortais que preferem jogar esses anos que lhes restam em copos de álcool e “diversão”, tentando se convencer que vão se sentir melhor no final. No final, todos morrem idiotas. Como vocês querem ser lembrados por quem fica? O bom ou o ruim?
                Espero que compreendam que não posso mais ficar aqui. Prefiro ir antes de ver o homem destruir tudo. O que me deu coragem foi saber que não serei o último a desistir, e nem fui o primeiro. Pelo menos aguentei mais do que aqueles que foram antes de mim, que interromperam suas missões antes mesmo de começar.
                Fico então por aqui, aproveitando meus últimos momentos. Nos vemos logo!
Ass: Peter Scott Johnson – Nova Iorque – Quadrante XXVI”

                Nem 24 horas após o envio do e-mail haviam se passado e Peter ouve uma batida na porta. Arrumado como para uma festa, com uma mochila, ele abre a porta. Sabia o que esperar.
- Recebemos sua mensagem. Seu pedido foi atendido. Destruiu o computador? – disse o homem que estava no lado de fora.
- Sim, tudo em ordem. Podemos acabar logo com isso? – respondeu Peter.
- Ok, venha comigo.
Entraram num carro, onde um outro homem esperava Peter.
- Meu filho. Você foi demais. Aguentar 35 anos é um feito e tanto. A maioria desiste antes dos 20. Pode tirar isso que já vamos partir! – disse o pai de Peter.
Peter puxou seus cabelos e toda sua pele saiu, como uma capa de chuva, deixando apenas um ser andrógeno, feito todo de luz azul. A “roupa” humana se desfez no chão do carro, que acelerou e sumiu num flash parecido com um raio de uma tempestade que se aproximava. Peter estava voltando pro seu planeta, e na viagem, feliz, disse ao pai:
- Eles estão condenados, é uma pena. Tem gente boa por aí, mas a maldade não tem limites e impede quem quer fazer o bem.
- Fica tranquilo filho. Teremos notícias dos outros enviados e logo outros nasceram e nos darão futuras notícias desses animaizinhos.
                Uma semana depois, uma notícia estampava os jornais locais de Nova Iorque: “ Homem desaparece sem deixar vestígios” e uma nota pedindo qualquer informação, com um telefone, e explicando que sua casa não foi arrombada, mas não foi encontrado nada de suspeito, apenas o computador parecia ter sido levado junto com o homem.
Nas ruas, fotos de DESAPARECIDO de Peter dividiam espaço pelos muros e paradas com outros desaparecidos da mesma maneira, a maioria mais jovens, que nunca seriam encontrados.


                                                               Autor: Patrick Prade

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