Quase Um Amor

                       
                     Quase Um Amor...

                Essa não é uma história de amor, muito menos de tragédias pessoais ou de superação, essa é a história de Peter, que após sair do fundo de um poço onde foi jogado após o término de um relacionamento, conseguiu sair e viver normalmente. Mas a vida, ah a vida, não gosta de coisas normais, paradas, e então, uma série de pequenas coisas transformam a vida de Peter. Coisas tão pequenas, que para os outros não significariam nada, mas Peter pensa muito, Peter ama muito, Peter sente muito...

                E não á maneira de começar á não ser voltando uns anos atrás, quando aos 18 anos Peter teve seu primeiro amor: um jovem de sua idade que estudava na sua escola. Contou aos pais, que mesmo religiosamente fanáticos, aceitaram por se tratar de um relacionamento respeitoso, discreto. Mas tudo tem um fim, e esse amor acabou para o namorado de Peter, que não aguentando ficar na mesma cidade, ver o seu amor e não poder fazer nada, resolve se mudar.

                Em sua nova cidade, Peter arruma um novo emprego, novos amigos, e lógico, um novo relacionamento, seu segundo amor. Mas desta vez é diferente, não o amor, pois o amor é igual, único, mas a diferença foi que Peter arrumou forças depois de quatro anos pra dar um basta na relação. Foi no aniversário de quatro anos de namoro. Seu namorado chegou e perguntou: "Onde vamos comemorar?" e Peter, tentando esconder o sofrimento, respondeu: "Comemorar o quê? A muito nós não temos nada pra comemorar!" e acabou. Peter sofreu, mas não voltou atrás. Seu ex havia destruído sua vida, seu amor-próprio, sua dignidade, e Peter tem princípios: não ficar com alguém que não o respeita, e principalmente, não respeita a si mesmo. Doeu, e muito! Não o amor, mas a falta dele. Peter entrou em depressão, tentou se matar, e depois de muita ajuda psicológica e de vários grandes amigos que tem a sorte de ter, Peter foi saindo do poço, não do seu, mas do poço do seu ex, onde ficou preso...

                Peter melhorou, mas com um porém: não saia de casa. Como se todo o resto do mundo fosse feito de espinhos, Peter ficava em casa com medo de se machucar. Têm como companhia seus filmes, livros e textos que escreve todas as noites pra aplacar a solidão. Peter não tem mágoas, Peter não que sentir mais amor, Peter tem medo de se machucar. Esse medo e esse isolamento já duram quatro anos e meio. Peter já sai ás vezes, adora seu trabalho, tem muitos amigos héteros, e sempre os respeitou. Peter nunca foi promíscuo, nunca passou cantada em alguém na rua, ele é discreto em relação á sua vida. Todos sabem de sua sexualidade, mas não do que ele faz. E ele não faz nada, ele nunca ligou pra corpo ou sexo, ou tamanho de órgãos sexuais como a maioria dos outros gays. Peter liga pro intelecto. A mente dos outros é que o atraí ou não, e aí é que a vida começou a conspirar contra Peter...

                Há alguns anos, logo que chegou em sua nova cidade, Peter fez amizade com uma garota que tinha um namorado, mas Peter nem ligou pra ele. Peter nunca olha pra namorados de amigas, ele tem ética. Acontece que o namoro da amiga acabou, e Craig, o namorado dela se tornou amigos virtual de Peter. Até aí, tudo normal não é? Não... Assim como a vida, o Facebook também começou a conspirar contra Peter e as primeiras postagens e atualizações que apareciam cada vez que abria a página eram de Craig. Coisas interessantes, como filmes, músicas, frases filosóficas, fotos da natureza, tudo coisas que Peter ama, e logicamente começaram a conversar... Peter nunca pensou em Craig de maneira sexual, mas ver suas postagens, conversar mesmo que sejam poucas frases, ia aos poucos fazendo Peter pensar cada vez mais em Craig. Até que um dia Peter se encontrou casualmente com Craig. Suas mãos suaram, seu coração tentou arrebentar as costelas e sair, e Peter teve uma vontade de abraçar o amigo, mas ficou apenas nas frases comuns...

                Peter não é um stalker. Ele não fica olhando de 10 em 10 minutos o perfil de Craig, mas mesmo assim, seu pensamento o leva á Craig nesse mesmo intervalo de tempo. Peter imagina como seria passar uma noite com Craig: beber um vinho, ouvir rock (sim, Craig gosta de rock!), falar de filmes, livros, e outras coisas absurdas que acontecem no mundo, na vida. Dar risada até o dia amanhecer. Sentar no sofá com a cabeça de Craig no colo enquanto faz carinho em seu cabelo e fica velando seu sono até amanhecer. Não há sexo, não precisa haver. Passar uma noite assim é mais íntimo do que qualquer relação sexual com alguém que tu "pega" numa balada. Peter imagina conversar com Craig, imagina o que ele deve estar fazendo. Quando Craig posta que está assistindo á um filme qualquer, Peter fecha os olhos e imagina por uns minutos como seria estar ao seu lado assistindo aquele filme, que Peter já assistiu, mas com certeza ao lado de Craig teria outro significado, geraria um debate á respeito do por que dos personagens serem assim, agirem assado... Peter viaja! Quase um astronauta quando o assunto é Craig. Mas qual o motivo de isso ser ruim? Eis a resposta e o motivo da tempestade que mudou tudo de lugar na vida de Peter:

                Craig, ao que tudo indica, gosta de mulheres, e Peter sabe que não pode mudar isso, mesmo que não espere ter um relacionamento sexual com Craig (mas se tiver, tudo bem, ele deixa acontecer naturalmente, sem forçar...). Peter não tem coragem de chamar Craig e falar o quanto o admira, o quanto sua amiga foi burra em deixá-lo ir, em quanto ver a foto dele na internet o faz sorrir, e no quanto o sorriso dele é lindo (ao sorrir, os cantos dos olhos enrugam e eles sorriem também, é um sorriso de rosto inteiro, que ilumina o dia de qualquer um!), e que tudo que ele queria era poder sentar e conversar com Craig sem ter hora pra ir embora... Mas ele não vai falar isso porque ele já deu a entender pra Craig que está sentindo uma forte atração, e Craig não vai querer ficar á sós com Peter por medo do que vai ouvir. Craig não sabe que Peter respeita os outros e jamais vai tentar algo contra a vontade de alguém. Craig não sabe nada de Peter... Craig acha que Peter só quer uma transa. Craig acha que Peter está sendo precipitado demais. Craig acha que Peter é promíscuo. Craig não sabe que Peter tem mais amigos héteros que gays e nunca se passou com nenhum deles, mesmo alguns deles tentando se passar com Peter. Craig não sabe que é tão importante pra alguém. Craig procura um amor... Peter ter muito. Craig não sabe que o amor está onde menos se espera... Peter sabe que seu amor deve esperar. Craig não sabe o quanto Peter poderia lhe fazer feliz. Craig e Peter são duas pessoas sozinhas. Craig não vai falar com Peter, e Peter não vai procurar Craig... É assim que acontece na maioria das vezes: a pessoa rezam procurando um amor e quando aparece, elas negam... No caso de Craig ele não quer porque Peter não tem seios e tem um pênis, no caso de Peter, ele nega porque não tem coragem. Desejamos o amor, mas não percebemos que ele pode vir em embalagens diferentes, ou em condições complicadas. Cabe á cada um decidir o que fazer. Peter fez! Escreveu pra Craig, enviou... Contou tudo, e espera uma resposta, um "vai á merda!", ou qualquer outra coisa, menos que Craig suma. Peter gostaria de conversar pessoalmente com Craig, mas está completamente ansioso porque não sabe como Craig vai reagir á carta. Só resta esperar e enquanto isso seguir a vida... Quem sabe um dia tudo passe e eles nunca vão saber se poderia dar certo ou não...

Comentários