Vai fazer um ano

     
                    

             Vai fazer um ano


Vai fazer um ano... Na próxima semana completa um ano que acabei com a minha vida! E não é só isso: matei dois amigos também, á quase um ano. Vai fazer um ano que terminei meu namoro em uma festa com a garota que mais amava, por um motivo bobo. Vai fazer um ano que após brigar com ela e dizer minhas últimas palavras pra ela, que foram “eu não te amo mais, na verdade nunca amei!”, bebi todas com um casal de amigos nessa mesma festa. Vai fazer um ano que, bêbado, peguei o carro junto com esse casal de amigos e resolvemos ir embora. David e Robert estavam juntos há três anos e eu matei os dois em 3 segundos. Morreram juntos pelo menos. Eu, ao contrário, estava longe da garota que amava. Em todos os sentidos da palavra “distância”.

Foi difícil no início aceitar minha nova condição. Falava com as pessoas, mas elas não me ouviam. Sentia frio, fome, dor, saudade, culpa e nada podia fazer. Mary, minha namorada, eu vi poucas vezes após aquela noite. Sai da vida dela com ela me odiando e com certeza me culpando pela morte de David e Robert. Os pais de David mudaram de cidade, e os vi apenas uma vez quando vieram se despedir de meus pais. Eles não guardavam mágoa, ao que parecia. Diferente foram os pais de Robert, que vi várias vezes fazendo campanha contra a bebida e direção. A culpa não foi da bebida, foi minha... Naquela noite acabei com histórias de amor de várias pessoas: a minha, de David e Robert, dos pais deles, dos meus. Mudei a rotina da pequena cidade onde moro por um simples erro.

Não consigo me comunicar com ninguém, mas posso ouvir, ver, sentir. Ouço meus pais chorando de noite, no escuro de seus quartos. Vejo fotos e troféus de quando eu, David e Robert jogávamos futebol na escola. Sinto culpa e dor por tudo que poderia ter sido e não foi devido à falta de comunicação entre eu e Mary.

Mary agora já está namorando e pelo que ouço, nem pensa em mim. E porque pensaria? Eu fui cruel com ela, me tirei da vida dela e levei os dois melhores amigos dela junto. Obriguei-a tomar outro rumo na vida e nada mais lógico que ela seguisse em frente, enquanto eu não posso.

Ás vezes eu converso com David e Robert. Não tive a oportunidade de vê-los, mas falo em pensamento desejando que eles me ouçam, e perdoem e que estejam ainda juntos e felizes. Sei que estão. Pode se matar o corpo, mas o amor não tem como. Sentimentos não morrem!

Vai fazer um ano que não falo nada com ninguém, mas hoje consegui escrever essa carta... Não com as mãos, mas através de sinais á minha irmã mais nova. Ela tem onze anos, e não me culpa por nada. Ela ainda não lidou com a perda de ninguém, não sabe o real significado de morte. Sinalizando pra ela, que passou pro papel esse meu desabafo de alguém arrependido que, vai fazer um ano, está vegetando numa cama em sua casa, apenas piscando os olhos e respirando, sem poder fazer nada, há quase um ano!

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