A Primeira Noite

A Primeira Noite

                


                Sou um cara reservado. Sou assim á quatro anos, desde que meu relacionamento amoroso terminou. Digo “meu” porque só eu amava. Mas hoje foi diferente! Estou em um bar com alguns amigos e amigos de amigos. Tem música ao vivo, embora não consiga identificar quais são devido ao tédio que estou sentindo. Gostaria de estar em casa. Não ouço direito as conversar, mas sei que são triviais: novelas, quem está pegando quem, quem traiu quem, mais novelas, futebol, receitas, rola todos os assuntos que não em interessam. Na verdade não sei se algum assunto me interessa, já que há tempos estou nessa de não interagir com outro ser humano além de algumas poucas palavras. Fica difícil escutar o que estão falando. Primeiro porque estão bêbados e as palavras saem estranhas. Segundo porque a música que não identifico está muito alta. Terceiro, porque os grupos das outras mesas também têm que gritarem com seus amigos para serem ouvidos. Eu canso, eu bufo, eu rezo pra Deus me tirar dali, mas dependo da carona de um amigo para ir pra casa. É tarde e a violência tomou conta das ruas. Decido fumar. Estou tentando parar, mas numa situação dessas até o Papa usaria o cigarro como desculpa para sair pra rua. Bendita lei anti-fumo em lugares fechados. Grito para meus amigos, eles não ouvem, então mostro o cigarro e o isqueiro, e aponto para a rua. Eles parecem entender, pois confirmam com a cabeça. Nem sei por que me dei o trabalho de avisar. Poderia ter saído, pego um avião para Paris, pular da Torre Eiffel que eles nem notariam. Mas é bom avisar. Vai que sou seqüestrado e nunca encontrem meu corpo... Pelo menos poderão dizer: ele saiu para fumar um cigarro e nunca mais voltou!

Estou na rua fumando e mesmo assim o ar parece mais puro que dentro do bar. Escoro-me na parede, com as costas numa janela de vidro enorme, para que quem passe na rua observe o quanto as pessoas naquele bar são felizes, por estarem bêbados, claro! A porta do bar se abre e um rapaz também acende um cigarro, também se escora na parede, também bufa... Parece estar tão entediado quanto eu. Então percebo que havia visto ele lá dentro, sozinho, escorado no balcão, bebendo lentamente uma cerveja, e me observando algumas vezes. Arrisco e pergunto:
- Eu te conheço de algum lugar?
- De lá de dentro. – ele responde
Dou um sorriso e pergunto se antes disso ele já me conhecia.
- Não, não você, mas alguém igual á você!
- Tipo um clone? – pergunto irônico.
- Não, tipo alguém muito importante para mim que morreu há um ano!
Fico sem reação! Peço desculpas pela brincadeira e o quanto lamento a perda dele.
- Seu parente? - pergunto
- Não, meu namorado...
Vejo uma lagrima tentando não cair dos olhos dele, vejo a minha cara de espanto tentando não se mostrar á ele. Ele sorri, mesmo com a lágrima ainda lá, ele sorri. O cigarro já acabou, e ele acende outro, eu não, estou parando, informo á ele, que sorri de novo.
Falamos de coisas triviais. As mesmas coisas que meus amigos estavam falando á pouco: do tempo, de como o ano passou rápido, e ele diz que pra ele um ano foi como uma década no inferno. Droga! Me esqueci do ocorrido e citei o “um ano” sem querer. Agora que ele seguiu o assunto, eu crio coragem e pergunto o que aconteceu.
- Estávamos juntos há três anos e então, um dia, ele disse que não dava mais, que estava cansado de ser um segredo pra mim. Na época eu tinha medo, ou vergonha, não sei, então não saia com ele, nem contava pra ninguém que estava namorando. Ninguém sabia da que sou gay. Nos encontrávamos todas as noites, no meu apartamento ou na casa dele, mas sempre em segredo. Então ele cansou. Disse que ia procurar alguém que não tivesse vergonha dele. Deus, eu não tinha vergonha dele. Minha vergonha era de mim! Então ele saiu chorando, acho que acelerou demais o carro pra me deixar pra trás mais rápido, e acabou errando uma curva. Dizem que ele não sofreu. Claro que não. Sofre quem fica!
- Eu sinto muito mesmo! – interrompo – Mas acho que você não deve se culpar. Foi escolha dele ir embora... Se não fosse por esse motivo, seria por outro. Quando chega a hora, não há como evitar...
- Eu sei, já superei isso, mas ainda dói quando penso, e quando penso em seguir em frente, lembro que ele não vai poder ir á lugar nenhum, que está enterrado, morto, como o meu coração!
- Lindo isso... É de algum livro? – pergunto tentando mudar o assunto, ou amenizar.
- Não, não é. Saiu agora sem pensar! Devoro livros, mas raramente lembro frases para citar – ele sorri enquanto fala isso. Ponto pra mim! O assunto mudou.

Entramos no bar, mas não volto para meus amigos. Vamos para uma mesa, pedimos cerveja e começamos a conversar sobre os livros que ele “devorou” e os que eu devorei. Sobre os filmes que nos marcaram, sobre as músicas do nosso tempo que não fazem mais iguais. Descubro que ele em quase minha idade: eu 36, ele 33. O assunto evolui para filosofia, religião, família e sexualidade. Tudo sem nos aprofundarmos na vida pessoal do outro, mas tentando descobrir nas entrelinhas algo sobre aquele estranho que agora é mais meu amigo do que muitos sentados na outra mesa. Eles nem notam que voltei. Meu corpo poderia estar esquartejado, jogado na lixeira atrás do bar e eles não saberiam. Mas meu corpo estava ali, mais vivo do que nunca!
O tempo pareceu parar e conspirar a nosso favor. Conversei com ele em algumas horas mais do que conversei a vida toda com meus colegas de trabalho. Meus amigos me notaram. Alguns dão um aceno. Eu aceno de volta. Outros estão se levantando, pegando a carteira e indo pro balcão. A noite chegou ao fim. Minha carona está indo embora. Ele não se oferece para me levar mais tarde, nem pede pra eu ficar um pouco mais. Meus amigos saem e ele me puxa para perto. Achei que fosse me beijar, mas não, apenas sussurrou: “Vamos nos encontrar de novo?”, e eu tremendo digo “Sim!”. Então ele solta meu braço, o movimento todo em câmera lenta... À medida que o braço dele cai e se afasta do meu, uma luz forte vem em minha direção, mas atrás dele. Então percebo... É difícil, mas acontece... Percebo que estou acordando de um sonho. Uma sensação horrível me invade, grita pra mim não acordar, não posso, preciso saber como encontrá-lo... Mas acordo e tudo some: o bar, a luz, ele, e a melhor noite da minha vida, que aconteceu enquanto eu estava dormindo.

Fico ruim o resto do dia. Nem parece que tive um sonho bom, mas sim o pior dos pesadelos. E não é verdade? Sonhar com alguém que não existe e que nunca mais vou encontrar? Era isso o que eu pensava... até o segundo encontro!               

                                                                                              

Patrick Prade

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