Coisas Que o Amor Destrói
Eu não
dormia muito. Minhas noites eram reservadas a outras coisas. Sofrer muito por
um amor que virou nada te faz ficar assim, isolado, anti-social, depressivo. Troquei
a dor da realidade pela ficção, hoje percebo isso com clareza, e paguei um bom
preço para descobrir. Minhas horas de sono eram induzidas por medicamentos, e
se limitavam á no máximo sete horas diárias. O resto do dia era dividido entre
trabalho e fantasia, até o dia em que ele apareceu.
No começo foi normal, como tem que
ser: vocês se olham, se cumprimentam e com o correr dos dias passam a conversar
sobre coisas triviais, como o tempo, trabalho e família. Foi nessas conversas á toa que comecei a sentir algo, mesmo contra
a minha vontade, eu senti. No começo tive medo e lutei contra, me
distanciei um pouco, as conversas foram ficando mais curtas e então ele
desapareceu, deixando apenas aquela semente de um sentimento que eu sabia que
não era correspondido. Alguém tão legal como ele não daria bola para mim, eu
pensava. Então quando você sumiu, foi até um alívio, pois não te ver não me
causava nada, e chegou um tempo em que até achei ter esquecido de seu sorriso e
sua voz. Esse tempo de paz durou seis meses. Seis meses em que você foi viajar
e acabou ficando, e não me avisou. E por quê avisaria? Éramos apenas
conhecidos, dois caras que se encontram na rua, na parada, no trabalho, e
trocam algumas palavras. Não havia motivo para você avisar que deixaria de
existir no meu mundo imaginário, onde eu significava alguma coisa para você,
onde você se importava comigo á ponto de dizer: eu vou viajar, mas você estará
sempre comigo!
Quando você voltou, tudo explodiu
dentro de mim. Aquele sentimento que não sabia dar um nome voltou com uma
violência titânica. Me destruiu por dentro, porque meu amor platônico reviveu.
Voltamos a nos falar, agora com mais frequência. Dividimos umas cervejas em
mesas de bar, dividimos também nossos segredos. Você me falando do quanto sofre
por sua ex, e eu demonstrando o quanto forte eu sou, por fora. Uma
interpretação digna de Oscar: um cara adulto dando forças para um amigo que
sofre de amores por outra pessoa, sem sonhar que é amado por esse amigo.
Claro que eu não podia te falar.
Claro que você não iria imaginar. Claro que eu sempre tenho que fazer alguma
coisa de errado. Essa é minha missão: fazer tudo errado. Então eu fiz. Eu te
falei de tudo o que sentia antes de você viajar, quando eu te cuidava de longe,
quanto conversar contigo era um sonho, que depois virou realidade e outro sonho
veio no lugar, o de ter você ao meu lado, para amar, para sentir teu cheiro,
teu gosto, você...
Nessa época os livros e filmes
ficaram em segundo plano! Tudo o que eu fazia era pensar em nós, sonhar com
nós dois. Então as horas de sono se prolongaram. Primeiro oito, depois nove, depois dez
horas por noite. Nessas horas eu e você éramos “nós”. Meus sonhos se resumiam á
você, e em algumas outras noites sonhava com aviões caindo. Sempre esses dois sonhos.
Nunca nós dois em um avião caindo, eram só nós dois, ou os aviões.
Você continuou ao meu lado,sendo meu
amigo mesmo sabendo do quanto eu te amava, mas não correspondia, apenas
compreendia. E continuava sua vida normalmente, sofrendo por ela, bebendo por
ela, usando drogas por ela, se destruindo por ela e me destruindo também. Foi
nessa fase que começou á doer. Doía tanto que todas as horas passadas fora do
trabalho eram reservadas á minha cama. Nos meus sonhos não doía. Então eu
dormia o fim de semana inteiro. Só acordava para tomar outro remédio de dormir.
Nos fins de semana você era meu, quando não apareciam os aviões, você era
meu...
Nessa época eu ainda ia ao trabalho,
e você aparecia lá para conversar e desabafar, até o dia em que a dor falou
mais forte que o amor, e eu te pedi que se afastasse. Te amar estava me
matando. Ver você se destruindo, estava me enlouquecendo. Tentei de todas as
maneiras te ajudar, mas você não queria ajuda. Você estava obcecado pela sua
ex, e eu por você. E antes que eu me tornasse você, antes que eu começasse á me
refugiar em bebidas, drogas e sexo pago, eu pedi clemência, implorei para você
sair da minha vida. Você dificultava cada dia mais te amar. Meu Deus como te
amar era difícil, insuportável. Eu te amava, mas não gostava de você. Apenas
nos sonhos, lá não existia dor, ex, drogas, bebidas, só o amor, verdadeiro e
pacífico.
Mas como todo ser humano, nunca
estamos suficientemente feliz com o que temos, e cansado de contar as horas
para sair do trabalho e ir para casa te encontrar em meus sonho, eu parei de
trabalhar. Minha vida seria ao seu lado, mesmo que eu estivesse sozinho na
cama. Eu rezava antes de dormir para meu sonho ser com você e não com os
malditos aviões que caem. E a maioria eram seus, nossos. Nos raros momentos em
que acordava para comer e bisbilhotar sua vida na internet, descobri a solução
para os meus problemas: um consultório médico revolucionário, onde você pode
escolher o tempo que quer dormir. Eu cliquei, e liguei, e fui...
Funcionava assim: você escolhia o
tempo que queria dormir, e eles induziam o coma, programando a alimentação
intra-venosa, um enfermeiro para a limpeza, outro para regular o aparelho. Ou
seja, eu seria um paciente em coma em um hospital, com a diferença que eu
estava lá porque queria, e pelo tempo que eu quisesse. Dois anos. Dois anos foi
o tempo que escolhi para passar ao teu lado. Dois anos vivendo um lindo sonho
sem acordar pra nada. Eu queria saber como seria estar ao seu lado, construir
uma casa, nos divertirmos, nos amarmos. Então foi dois anos que escolhi antes
de me deitar e fechar meus olhos para o mundo real e abrir para o mundo dos
sonhos.
Eu estava literalmente fechando meus
olhos para a realidade de que o que eu sentia não era amor, era apenas um
desenho, um sonho. Dormindo eu vi que não amava você, que você era apenas um
cara que podia realizar meu sonho de amar. Eu estava colocando amor em você,
colocando amor onde não existia, colocando amor em alguém que não queria ser
amado. Eu era muito fraco, covarde demais para assumir isso antes, mas hoje
eu vejo tudo isso mais claramente, depois de dois anos. Sim, depois de dois anos
em coma nessa clinica eu consegui aprender. Nunca imaginei que diria isso, mas
foi a melhor coisa que aconteceu comigo: ficar dois anos sonhando com quedas de aviões!
* Conto escrito e
registrado por Patrick Lima Prade

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