Brincando De Deus
O mundo está um caos. Somos quase oito bilhões de pessoas perdidas entre labirintos criados pelo sistema, vivendo um roteiro comum: nascer, estudar, trabalhar se reproduzir e morrer. Sair desse roteiro é arriscado e mal visto pelos “normais”. Eu não sou normal. Eu faço a diferença. Eu estou ajudando o mundo a se tornar um lugar melhor. Sou um viajante, e em cada cidade diferente faço um jogo. Quero limpar o mundo, mas não gosto de sujar as mãos, por isso, ao chegar nessa pequena cidade, já à tarde escolhi meu jogador: um jovem bancário almoçava com sua companheira grávida em um restaurante. Ele seria o jogador, ela seria minha isca. Após o almoço, pegar ela no estacionamento de um shopping foi fácil, e com algumas ameaças ela me deu os dados do meu jogador: Maurício, 29 anos. Hoje á noite a vida dele vai mudar, e a vida de seis pessoas, acabar!
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Ao chegar em casa achei estranho Elisa ainda não estar. Ela iria ao
shopping e viria direto pra casa. Já são 22h e ainda nem sinal dela. Resolvi ligar para seu celular. Um homem atendeu.
- Alô Maurício! – disse a voz, para mim, desconhecida.
- Alô. Esse número é da minha esposa, Elisa. Porque ela não atendeu? Quem é você? – perguntei, confesso, com medo e um pressentimento de que coisas ruins iriam acontecer.
- Maurício, Elisa está bem. Mas preciso que me escute até o final porque não vou repetir. Se quiser ver Elisa viva novamente, terá que me ouvir até o final, entendeu?
Sentei no chão. Olhei pra tela do celular. Aquilo devia ser um engano. Mas
concordei em ouvi-lo.
- As regras são simples: á partir da meia-noite até as seis horas da manhã, você tem que matar seis pessoas. Uma por hora. E amanhã sua amada volta pra casa. Não tente avisar a polícia porque tudo que eles vão encontrar serão os pedaços dela. Não tente encontrá-la sozinho, você não conseguirá. Ela está muito bem escondida, embora sem água e comida, mas vai sobreviver até amanhã se você completar o jogo. Não perca tempo tentando me encontrar, porque já fiz isso várias vezes e nunca fui encontrado. Outra coisa: três das vítimas têm que ser mulheres, pois são elas que colocam crianças nesse mundo sem futuro.
- Porque eu? Quer dinheiro? Eu tenho muito e posso conseguir mais no banco onde trabalho – foi tudo o que consegui falar.
- Meu problema não é dinheiro. São pessoas como você! Porque você? Porque alguém tem que sujar as mãos. Eu fui escolhido e agora escolho você. Já viu notícias de prostitutas mortas por clientes, mendigos sendo queimados, jovens mortos por nada, atropelamentos com fuga, tudo isso tem um dedo meu. Por onde eu passo, alguém tem que matar, e seis tem que morrer. O mundo precisa ser limpo. Você tem 90 minutos até a meia-noite. Comece a se preparar, e a cada vítima, você deve bater uma foto e me enviar. E não tente ligar novamente para Elisa. Apenas faça o que tem que ser feito. Escolha entre matar seis desconhecidos, ou deixar sua esposa grávida morrer de fome e sede na sepultura que escolhi pra ela. – dizendo isso, desligou, e eu também.
Fiquei paralisado uns dez minutos tentando entender tudo o que ouvi. Não podia avisar a polícia, nem ninguém, pois envolver outra pessoa poderia estragar tudo. Meu Deus, Elisa enclausurada sabe-se lá onde nessa cidade ou até fora dela. Eu não tinha opções, mesmo ele me dando o poder da escolha, ele já sabia que eu escolheria salvar Elisa.
Comecei nas escolhas das armas. Não tenho arma de fogo, então levei para o carro tudo o que podia me ajudar nessa insanidade: facas, martelo, foice, facão, cutelo, e até um bastão de baseball. Faltando 10 minutos para a contagem começar, eu saí á procura de quem seria minha primeira vítima. É incrível, mas nunca matei nada, nem um animal quando era criança, ao contrário, a violência me enoja, mas não pensei duas vezes em procurar alguém pra matar. Sem querer ele me deu umas pistas: o ideal seria pessoas que não seriam notadas tão rapidamente, como moradores de ruas, prostitutas, pessoas excluídas da sociedade. Acho que essa é a intenção dele: acabar com a chamada escória do mundo.
0h10min - Uma prostituta parada numa esquina de pouco movimento. Me
pergunto como elas tem coragem de ficar ali, á mercê de qualquer um. Paro o carro e faço um sinal para ela entrar. Dirijo até uma estradinha de chão secundária e digo que teremos que fazer ali mesmo. Ela não parece se importar, como se aquilo fosse algo habitual. Digo que quero fazer em cima do capô do carro, uma fantasia que tenho. Ela ri, me chama de safado e vamos para fora do carro. Enquanto ela abaixa para abrir meu cinto, eu tiro a faca que estava atrás na minha cintura e com os olhos cheios de lágrimas começo a esfaqueá-la. Primeiro na garganta, para ela não gritar. Depois no coração, para ela morrer rápido e não sofrer. E assim foi. Depois que chorei e me amaldiçoei, bati a foto, enviei para o celular de Elisa e levei o corpo pro meio do mato.
Troquei de roupa, deixando a suja dentro de um saco no porta-malas. Eram quase 1h30min. Eu tinha que correr e matar mais um.
1h57min – Com um grande atraso, essa teria que ser uma morte mais rápida. Pensei e me dirigi á rodovia. Sempre há pessoas pedindo carona, e hoje uma ganharia uma carona para a morte. Com ânsias de vômito eu dirigi lentamente e avistei longe um jovem mochileiro fazendo sinal. Droga, eu não tinha tempo. Acelerei o máximo e fui em direção á ele. A estrada estava sem movimento e ninguém viu um jovem espirrando sangue para todos os lados voar em direção ao acostamento. Desci rápido, batia maldita foto e empurrei o corpo para mais longe possível da rodovia. Fui ao posto mais próximo e estacionei no escuro para limpar o carro. O estrago foi pouco, pois o rapaz foi jogado pra cima e não chegou a bater no carro, apenas na frente, na hora do impacto.
2h58min – Carro meio limpo, pego um café no posto, bebo e saio em busca da vítima número 3. Lembro do “abatedouro”. Um local conhecido na cidade aonde jovens vão para se drogar e transar. Muitos vão para o meio da mata para ter mais “privacidade”. Estaciono no “abatedouro”, que tem alguns carros, mas me dirijo caminhando em direção das árvores. Encontro um casal, nus, deitados sobre uma toalha no meio da mata. Eles não me enxergam, mas eu os vejo.
Matar os dois me pouparia tempo, mas como fazer isso sem que um comece a gritar enquanto atinjo o outro? Lembrei de uma cena de Sexta-Feira 13 idêntica ao que estava por vir. Fui ao carro e peguei o facão mais longo. Escondi na calca e voltei pro mato. Os poucos freqüentadores do local estavam muito excitados ou chapados demais para me notarem. Eu poderia matar todos ali e eles achariam que era uma “viagem”. Chego perto do casal. Ele deitado sobre ela, e eu espero um momento em que ela feche os olhos para me aproximar. Ela fecha, eu vou, e piso num galho que desperta a atenção do casal. Não dá tempo de sair. Ele levanta e eu golpeio o facão no seu pescoço. Vejo que a cabeça ficou pendurada apenas por um pouco de carne. A moça, para minha sorte, não gritou. Continuou deitada e acho que por reflexo, pegou um galho e bateu na minha perna, me derrubando. Levantou e saiu correndo. Eu levanto e
corro também. Ela, desesperada, como num filme B, cai, e eu tenho minha
chance. Ela levanta o braço para se defender e meu coração aperta contra aquela cena inútil. Um braço de carne e osso tentando se defender de um facão. Não posso amolecer agora. Corto o braço, corto o pescoço novamente. Desta vez com tanta força que a cabeça sai inteira do corpo. Bato a foto e envio. Volto ao local onde o jovem está caído e faço o mesmo. Dois coelhos. Faltam mais dois...
3h50min – O viaduto. Mendigos. Outro que demorariam á sentir falta. Uns
dormiam embaixo da ponte, enquanto outros se aqueciam numa fogueira mais longe, e outros também dormiam espalhados no meio do lixo e da pobreza. Mas havia um, mais distante, dormindo embaixo de papelão. Era uma mulher, a terceira da noite. Era fácil, e seria rápido. Acelerei e passei por cima. Pude ouvir o barulho de ossos quebrando. Dei ré e passei por cima de novo. Ela tinha que morrer, não podia ficar só ferida. Eram as regras. Desci correndo, bati a foto e fugi. Mais adiante parei e enviei. De longe, observei ainda que nenhum dos outros mendigos havia notado o ocorrido. Eu estava exausto. Queria ser o próximo á morrer, mas tinha que salvar Elisa.
04h33min – Mais um. O Último. Enquanto dirigia passei de novo pelo local onde atropelei o mochileiro, ninguém parecia ter notado, continuava escuro e vazio. Passei no posto onde havia limpado o carro e tomado um café, e vi um caminhoneiro abastecendo o caminhão. Caminhoneiros demoram pra voltar pra casa, vivem na estrada. Demoram pra ser encontrados. Estaciono novamente atrás do posto, no escuro. O caminhoneiro nem me notou. Terminou de abastecer, entrou no velho posto e pagou. Saiu em direção ao banheiro. A sorte estava do meu lado. Eu já não pensava como o Maurício de algumas horas atrás. Não os via mais como pessoas, mas como obstáculos. Todo homem tem seu lado animal. O meu acordou essa noite. O caminhoneiro saiu do banheiro e
enquanto passava num local mais escuro, eu o acertei por trás, na cabeça com o bastão. Ele caiu e eu continuei batendo, com força, e cada vez mais força. Não havia como ele sobreviver á aquilo. Levei o corpo de volta até o banheiro, bati a foto e envie. Fui em direção a porta e ouvi um barulho. Eu conhecia aquele barulho. Fui até o corpo do caminhoneiro e vi uma luz em seu bolso. Peguei e tudo escureceu. Era um celular igual ao de Elisa, com a mensagem de “um arquivo recebido”, abri e vi a foto que acabara de bater do homem que matei. O jogador. O único homem que sabia onde Elisa estava escondida...
Escrito e registrado por Patrick Lima Prade

E então Maurício virou um psicopata.
ResponderExcluirQue texto interessante. Digno de um escritor !
ResponderExcluirObrigado Lucas.
ExcluirO texto é pouco crível. O bancário já possuía elementos para chamar a polícia, como a conversa no celular. Essa é a atitude esperada para um cidadão comum, que inclusive não se converte em serial killer de uma hora para outra, mesmo sob pressão. Muita coisa também daria errado nessas suas primeiras tentativas. Apesar das escolhas parecerem as mais fáceis, é factível uma ou outra prostituta ou caminhoneiro andarem armados, já que as ameaças são constantes. O final do texto ficou legal e parece caber uma continuação. O texto traz uma vaga lembrança com certas seitas pós-modernas que pregam a morte de pessoas que para elas representam um fardo para sociedade e para o meio ambiente e também com o prestigiado seriado japonês Death Note. Acho que ficou razoável.
ExcluirObrigado Anônimo. Dicas anotadas. Mas é um conto rápido, sobre o pouco que nos separa de sermos bons e ruins. Para ele, bastou ameaçar a esposa grávida que já despertou algo que talvez existisse antes, e que todos temos. Não sei se faria o que ele fez, mas não chamaria a policia, já que o "Deus" deixou claro o que faria com a mulher... Mas cada um interpreta de um jeito não é? Obrigado pela visita, e pode apontar falhas nos outros contos se quiser. Adoraria ler.
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