Diário Inacabado de Um Amor Sem Fim



Diário Inacabado de Um Amor Sem Fim



1º Dia - Eu ainda não cai na real do que fiz. Terminar era a opção mais inteligente, eu sei. Eu fui abandonado, mas fui eu quem terminou a história. Tudo o que faço agora é chorar. A dor ainda não é grande como eu imaginava, acho que no fundo uma parte de mim espera que ele venha correndo, peça desculpas por ter sumido e me abrace. Essa esperança vai diminuir e a dor vai aumentar. Eu sinto.
2º Dia - Não dormi, nem consegui comer. Trabalhar eu fui, não posso me dar ao luxo de ficar sofrendo enquanto a outra pessoa está na boa, pelo que imagino. Mas será que ele sofre também? Minha metade anjo espera que não. Minha metade negra deseja que sim. No calor do momento falei coisas terríveis para machucar, como se fazer ele sofrer diminuísse o meu sofrimento. Mera ilusão. Voltei pra casa e chorei no banho para minha mãe não ver, e eu não ver minhas lágrimas.


4º Dia - Emagreci três quilos. Em breve devo desaparecer. No trabalho consegui conversar um pouco, mas quando o assunto passou a ser os relacionamentos, eu fui pro banheiro chorar e tentar disfarçar minhas olheiras. Ainda não durmo direito e comer é um sacrifício, pois em poucos minutos tudo volta e acabo vomitando. Meu corpo parece não aceitar que eu preencha esse vazio. E eu não sei se quero preencher.
7º Dia - Começou as tonturas e dores de cabeça. Vou ter que ir ao médico se quiser voltar a dormir um dia. Quanto a alimentação eu resolvi viver só de líquidos. Preciso repor todo o líquido que perco durante as crises de choro. Queria ligar para ele. Para aliviar, digitei uma mensagem enorme e depois deletei. Não aliviou nada.
11º Dia - Consegui dormir com o remédio novo, mas sonhei com ele. Sempre tive facilidade em controlar meus sonhos, sonhar com o que eu queria. Pelo jeito perdi essa capacidade junto com mais dois quilos. Digito o número dele e aperto para chamar, mas desligo antes de tocar. Vou quebrar meu telefone. Mas o que eu preciso fazer para apagar o número dele da cabeça?


15º Dia - Minha concentração está péssima, pedi um dia de folga pra descansar. Não descansei. A dor emocional diminuiu muito, mas passou pro corpo. Me dói as costas e os ombros. Meu mundo está ficando pesado demais, e eu cada vez mais leve...
20º Dia - A dor no corpo está passando. Meu peso diminui assim como a vontade de seguir em frente. A cada dia que passa eu me sinto mais forte, mas um pouco mais longe dele. As chances de voltar diminui dia após dia e isso me desespera. Como ele aguenta a saudade de mim? Será que encontrou alguém? Que está feliz? Ele tem que pensar em mim, já que eu não estou pensando.
27º Dia - Já não choro mais, mas deve ser porque só acordo para tomar outro remédio e voltar a dormir. Logo preciso voltar ao trabalho e não me imagino fazendo outra coisa se não for ao lado dele. Todos acham que estou exagerando, mas estão errados. Só eu sei que ele é minha alma gêmea, e que não poderei ficar com ele. Não é 'exagero', é CERTEZA.
33º Dia - Tentei ir trabalhar. O sol e a alegria das pessoas só me fez lembrar que nunca serei assim. Comprei um novo celular e a primeira coisa que fiz foi escrever uma mensagem pra ele, que não envie de novo, mas aliviou. Voltei pra casa com uma tranquilidade que a tempos não sentia. Uma certeza de que as coisas iriam terminar logo. Menos uns quilos, mas nem ligo mais.
35º Dia - A leveza não é mais só na balança. Minha alma está mais leve. Dormi muito bem e nem sei se sonhei. O choro já secou, consegui trabalhar e fui bem recebido pelos colegas, com bolo e tudo. Consegui comer ele. Cheguei em casa e sabia que tinha passado, terminado o período de luto. Quase uma quarentena. Estou bem, estou leve. Me permiti escrever uma última mensagem para ele, e desta vez envie. Agradeci por ele existir e pedi que nunca me esquecesse. Era hora de descansar em paz. Que assim seja.
* Esse diário foi encontrado no 36º Dia, ao lado do corpo de seu dono.


Texto escrito e registrado por Patrick Lima Prade

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