Num Deserto Com Garrafas Vazias

Num Deserto Com Garrafas Vazias


            As paredes se fecham. Estou no meu quarto, o lugar que até então era o lugar mais seguro pra mim. Era... Agora, nada mais nele faz sentido. Como as coisas fora dele já não fazem há muito tempo. Livros, filmes, jogos, músicas, as minhas características e meus gostos ali, em prateleiras e objetos que agora não me alegram mais. Para onde fugir se você já está dentro de seu refúgio? Sinto meu peito pressionar e por um momento fico rezando que seja um ataque fulminante, que não seja outro daqueles momentos que se ouve dizerem “calma, vai passar!”, mas parece que nunca passa.  E passa, até vir outro e outro, e você acha que já está pronto pra outra, afinal, depois de tantos, a gente fica um pouco mais forte não é? Não, não é! Cada novo ataque parece ser mais forte e pior que o anterior. Ao mesmo tempo em que você quer cair morto no chão pra que acabe tudo de uma vez, você também sente um medo desesperador de morrer. Não tem explicação, então ninguém entenderia.
            Penso em sair, dar uma volta, tomar um ar, ver pessoas. Mesmo com a dor e o desespero, me vejo rindo, dou tanta risada que choro. Sair me parece uma ótima ideia e ao mesmo tempo uma missão fatal. Prefiro morrer prensado com as paredes do quarto do que caído na rua. Rua... Um lugar que me desespera. Pessoas, barulhos, caminhos. Não consigo, eu sei que não consigo. Aliás, até consigo, mas talvez eu não queira fazer esse esforço terrível de sair e fingir pras pessoas que estou bem, que não estou com vontade de correr de volta pra casa, que não estou com dor na garganta por controlar a vontade de chorar.
            Desisto de sair. Vou pro banho. Não há melhor lugar pra chorar do que embaixo do chuveiro. Mesmo que ás vezes pareça não haver água suficiente no mundo para encobrir suas lágrimas. Tiro a roupa e me olho no espelho. Não gosto do que vejo. Mentira, gosto sim. Não gosto do que os outros veem quando me olham, e eles veem aquilo ali, um corpo, um rosto, e só. É só isso que somos: um corpo. Às vezes não tenho vontade nem de tomar banho, de me escovar, de cortar as unhas. Higiene pessoal para que? Para os outros te acharem mais bonitos, limpinhos. A gente faz tudo pelos outros. Pra quem você se veste? Por quem você se maquia? Qual a razão de você sair á noite pra baladas? Não me diga que é pra se sentir bem. Não minta pra mim, nem pra você. No fundo você é que nem eu. Só não tem coragem de admitir.
            Saio do banho mais leve por ter chorado, mas mais sufocado por palavras que não tenho pra quem falar. Já é tarde. Todos meus amigos estão dormindo, e não quero incomodar ninguém mais uma vez. Quando eles precisaram de mim eu estava tão mergulhado na minha dor que não consegui ajudá-los o suficiente, e isso me faz eu me sentir péssimo, com vergonha de procurá-los. Entro na internet. Talvez rir um pouco me ajude. Não ligo nenhuma música. Todas as músicas que eu gosto falam daquilo que mais me faz falta: um amor. É como estar perdido há dias num deserto e só encontrar garrafas de água vazias. Fulano está num relacionamento sério. Fulana posta uma indireta pra alguém. Um casal posta foto deles bebendo em uma festa. Desligo o computador antes que comece a visitar sites suicidas, e já visitei esse tipo de site muitas vezes nos últimos dias. Saber o que os outros passam, coisas muito piores que eu, já me aliviou há muito tempo atrás, hoje não me comovem. Cada um lida de um jeito diferente com a dor. A maioria acharia meus motivos fúteis, assim como eu acho os motivos de alguns. Não ajuda dizer que fulano passou por coisas muito piores e não ficou assim. Eu não sou fulano, e ele não é eu. Eu não sei como lidaria com o que ele passou, e ninguém pode saber como ele agiria se estivesse no meu lugar.
            Tento comer. Dou umas mordidas num pão puro porque tenho preguiça de abrir a geladeira e pegar o resto das coisas, e também porque não iria comer mesmo. Deixo a metade do pão e vou com o café pro quarto tentar ler um livro. Depois de duas páginas, volto e tento reler porque não sei o que li. Fico nisso até terminar o café e o cigarro. Me lembro que não deveria tomar café antes de deitar porque a insônia piora. Largo o livro, largo a xícara, resolvo não escovar os dentes. Já me olhei demais no espelho por um dia.
            Enfim desisto. Tomo dois comprimidos pra dormir, porque um não vai adiantar por causa do café e do meu cérebro me questionando o que eu vou fazer da minha vida. Não sei, não quero mais pensar nisso porque não sei o que fazer, não sei se faria se soubesse, e se faria, não sei se faria certo. Então em deito, peço desculpas á Deus por ter desperdiçado mais um dia, mas a oração é interrompida por lembranças de coisas que não aconteceram e que provavelmente nunca acontecerão. Então choro mais um pouco até pegar no sono porque sei que amanhã vai ser tudo isso de novo. Mas antes de adormecer completamente, ainda me vejo sussurrar que vou conseguir aguentar mais um dia. Só não sei quantos, mas o de hoje passou.

                                                                                                                    Escrito e registrado por Patrick Lima Prade

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