
E assim sem motivo tudo vai perdendo o sentido aos poucos. Os filmes parecem todos iguais ou você já sabe o que vai acontecer antes mesmo de ver. Os livros parecem serem escritos por você, pois as palavras são todas repetidas iguais a outras tantas lidas, só que em ordem diferente. Jogos, músicas, qualquer outra coisa que você poderia usar para preencher esse vazio não te atrai. Você prefere continuar no vazio do que fazer o esforço para sair dele. Se escora na parede e ali poderia ficar o dia todo se as pernas não cansassem e implorassem para você deitar. Deitar, dormir e não acordar.
O coração, que não pensa ou sente, fica batendo como se nada
estivesse acontecendo, embora nada esteja mesmo acontecendo. Mas o cérebro fica
procurando motivos do porque me sinto assim. Falta de amor próprio? Falta de um
amor? Falta de propósito? Falta de dinheiro? Falta de vergonha na cara? Falta?
Falta? Falta? O que falta meu Deus? Eu não quero nada, mas principalmente não
quero sentir isso! Não aguento mais...
“Vai passar! ”, “É uma fase! ”, “Tu já passaste por coisa pior!
”, eles dizem, e eu dou risada por dentro porque sei que é o jeito deles
tentarem ajudar, mas a verdade é que NUNCA passou. Sempre esteve ali, só que
algumas vezes eu consigo disfarçar, fingir que está tudo bem. Mas por quanto tempo
uma pessoa aguenta fingir estar bem? Será que a vida é mesmo um palco onde
estamos todos interpretando? Quando fecha as cortinas, alguém me diz!?
Família, amigos, e tudo o mais. Devo pensar neles? Claro! É
óbvio que penso em como tudo vai ser depois. Mas logo eles superam, aprendem a
conviver com um ser humano a menos, alguém que passou. E eu, quando vou
aprender a conviver com isso que não sei o que é e não tem como ser vencido?
Como vencer um inimigo invisível? Como ser forte se você não consegue ficar de
pé? Como ser qualquer coisa se me sinto um nada?
Mas hoje estou bem, ontem a conversa foi boa, mesmo que à distância. Deu 90
minutos exatos de ligação. Não lembro a última vez que falei tanto tempo com
alguém por telefone. A conversa fluiu agradável, passou tão rápido que não me
pareceu tempo suficiente. Mas hoje você virá e a conversa será frente a frente.
Depois de meses de espera, finalmente nos veremos, nos tocaremos. Sentiremos o
cheiro e o gosto um do outro.
Abro a janela, de onde tenho uma visão completa da rua por
onde sei que você virá, mas mesmo assim espio as outras para ver se você não
vem por outro caminho. Já caminhei quilômetros dentro do meu apartamento, mesmo
sabendo que ainda faltam meia hora para o horário combinado. Mas vai que você
resolve fazer uma surpresa e apareça antes, não é?
Por isso já estou pronto. Já escolhi as músicas que sei que
você gosta, e separei o vinho que você tanto é fã. Fico parado na sala olhando
em volta para ver se está tudo em ordem. Deixo meus livros a mostra para você
ver que não sou fútil, que gosto de ler e tenho um mínimo de inteligência.
Também já deixei meio a mão alguns filmes que sei que você curte para o caso de
resolvermos assistir algo. Mas acho que no meio de tanto assunto em comum, não
teremos tempo para a ficção. Agora é algo real, e eu estou morrendo de medo.
Acendo um cigarro na varanda para não deixar cheiro na sala
perfumada de incenso, que você adora. Falta pouco agora. O tempo diminuiu e a
ansiedade aumentou. Acho que tanto tempo sozinho me deixou carente demais, sem
saber como agir. Escovo os dentes para tirar o mau-hálito enquanto escuto
nossas músicas, aquelas que ouvimos juntos pelo telefone, aqueles clips que
trocamos. Parece que já te conheço pessoalmente, mas ao mesmo também não sei
quem é o cara que vai chegar hoje. É contraditório.
Está na hora. Cuido pelas janelas e nenhum carro é o seu, que conheço tão bem pelas fotos.
Mesmo sabendo que o trânsito atrasa as pessoas ainda assim sinto uma dor na
barriga. Será que você vem? Sim, esse encontro foi planejado á tanto tempo por
nós que certamente você virá, ou já teria me ligado. Olho o celular e nada.
Penso em ligar para saber se você achou o caminho, mas me parece cedo para
isso, vai parecer que estou desesperado. Na verdade, estou, mas não quero que
você perceba.
Passou quinze minutos. Esqueço os joguinhos e resolvo te
ligar. Caixa postal. Não deixo recado, isso é o cúmulo do desespero. Acendo
outro cigarro na janela da sala. O cheiro já não importa. Importa que você
venha, só isso! Desligo a música pois estão me deixando depressivo. A dor na
barriga subiu um pouquinho, parece estar pertinho do coração. Mas talvez seja
impressão minha. Não vou morrer hoje, não sem antes lhe ver.
Já passou uma hora do horário combinado. Já são cinco
ligações, três cigarros e uma dor no peito. Não há o que fazer. Não posso ligar
para sua família, eles não sabem de mim ainda. Só me resta esperar. Tento ler
um pouco mas é em vão. Jogo o livro no sofá e ligo a televisão. Me concentro na
previsão do tempo. Tempestades acontecendo em lugares isolados da cidade e aqui
começa a cair algumas lágrimas. Começo a inventar conversar imaginárias com
você se desculpando pelo atraso. Ensaio caras de tranquilidade e
despreocupação. Mais cigarro, mais uma ligação. O cara da TV fala sobre economia
e eu finjo entender. Agora a matéria é outra: um acidente. Não pode ser! Eu
conheço aquele carro, mesmo todo destruído. Não consigo acreditar na foto que vejo, não escuto
mais a voz do repórter. Me ajoelho na frente da TV, as lágrimas caindo e eu
também. A TV continua ligada, mas eu desligo...
Texto escrito e registrado por Patrick Lima Prade
Ótimo conto! Há vários trechos em que podemos nos identificar com esse conto.
ResponderExcluirGostei muito,parabéns!
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